domingo, 2 de abril de 2017

Irmãos Grimm - A Serpente Branca


1 - A Iguaria Secreta:
Em um reino, há muito tempo, vivia um poderoso e adorado rei, célebre por sua sabedoria sobrenatural. Nada passava despercebido ao mesmo, que sabia de tudo o que se ocorria naquela região. Muitos acreditavam que os ventos traziam as informações para o rei, outros imaginavam que ele era um feiticeiro, porém ninguém ousava questioná-lo sobre a fonte de tamanha sabedoria, temendo ter a cabeça arrancada do corpo.

Todos os dias, após o almoço, o monarca pedia aos empregados que limpassem a sala de jantar e corria para seu quarto, onde esperava por um prato que nunca era servido no almoço. Ninguém sabia o que havia naquela bandeja, nem mesmo o empregado que a levava ao quarto do rei, já que o glutão só a abria quando estava sozinho.

Durante muito tempo as coisas ocorreram desse jeito, até que certa vez o empregado de confiança do rei, tomado pela curiosidade que acumulou durante anos, pegou a bandeja e correu para seu quarto. Observou se ninguém o percebeu, abriu a bandeja e se deparou com uma serpente branca assada. Definitivamente aquilo não era uma comida comum e devia ter um sabor inigualável, já que somente o rei podia comê-la. O empregado retirou uma pequena fatia do animal e levou à boca. O gosto não era lá tão bom assim, então por quais motivos o rei escondia tanto aquele prato? Foi então que algo estranho ocorreu: o jovem serviçal começou a ouvir sussurros vindos do lado externo do castelo. Temeroso de que alguém o havia visto, foi até a janela e debruçou-se para ver quem estava conversando. No entanto, para sua surpresa, não havia ninguém ali. Mas de onde vinham os sussurros? Começou a observar mais atentamente o pátio do castelo e finalmente percebeu que os cochichos vinham de um grupo de pardais em cima dos galhos de uma velha árvore.

De súbito o coração do jovem começou a bater, e percebeu que descobrira a fonte de sabedoria do rei: a serpente branca conferia àquele que a comia o poder de falar com os animais! Naquele mesmo instante um barulho ecoou nos corredores do castelo – alguém estava chegando. O jovem correu até o quarto do rei, depositou a bandeja em cima de uma pequena mesa e voltou para seu quarto, onde ficou o restante do dia a refletir sobre sua nova habilidade.


2 - O Anel Roubado:
Naquele mesmo dia, mais ao anoitecer, quando o jovem criado se preparava para dormir, um guarda bateu à sua porta gritando feito um louco. Gentilmente o rapaz a abriu e perguntou o que ele queria. O guarda, nada amigável, apontou a lança para o pescoço do jovem e disse que a rainha queria vê-lo urgentemente.

Ao chegar no salão dos tronos viu que vários criados e guardas lá estavam, ao lado da poderosa rainha:
- Foi você, seu ladrãozinho maldito?! – perguntou ela furiosamente.
- Eu o quê? – Perguntou em resposta o empregado.
- Meu anel de ouro com diamantes sumiu! E não existe outra pessoa que possa tê-lo pegado, a não ser tu!
- Como assim? Eu passei o dia inteiro em meu quarto!
- Ah, poupe-me de suas desculpas! Você é o único empregado que tem acesso a todos os cômodos do castelo, quem mais poderia ser?
- Juro por Deus minha rainha, não fiz nada!
- Tudo bem então, darei a ti um prazo de 24 horas para encontrar esse maldito anel, ou pelo contrário será condenado por tê-lo roubado! - E assim a rainha fez um gesto liberando todos os indivíduos ali presentes.

Desolado o pobre rapaz voltou para seu quarto, onde ficou a pensar como encontrar o anel, já que não fazia a mínima ideia de onde começar a procurar. Passou a noite em claro, matutando em algo, mas nada o poderia ajudar naquele momento. Foi até o quintal para ver o final da noite e a lua se pôr no horizonte, acreditando que aquele seria o último luar de sua vida. Naquele mesmo instante, escutou um grupo de patos a conversar próximo à lagoa. Eles colocavam os assuntos em dia, e contavam uns aos outros o que fizeram no dia anterior. Um deles inclusive, falou que estava com um peso enorme no estômago, e acreditava ter engolido um anel, mas não sabia ao certo o que era.

Sem pensar uma segunda vez, o rapaz se levantou e foi atrás do pato, agarrou-o pelo pescoço e levou até o cozinheiro. Ao chegar à cozinha, o grande cozinheiro gordo já se encontrava na frente do fogo, cozinhando algum tipo de sopa.
- Ei, gorducho, o que está preparando aí? – perguntou o jovem.
- Estou fazendo um ensopado com legumes para o almoço, mas não sei qual carne adicionar.
- Que tal esse pato? Acabei de capturá-lo, está gordo feito um leitão!
- Deixe-me ver! – Disse o cozinheiro ao pegar o animal pelas asas. – Realmente! Está bem carnudo esse pato. Irei colocá-lo na sopa.
- Deixe que eu o mato para você! – pôs-se o jovem fingindo ajudar o cozinheiro.

Pegou o pobre animal, levou para uma grande mesa e com uma grande faca de açougueiro o decapitou. Abriu seu estômago e lá estava o valioso anel. Mal terminou de abrir o pato e o jovem saiu correndo para o quarto do rei. Ao chegar lá, a rainha já estava à porta esperando pela camareira.
- Minha rainha! Encontrei seu anel! – gritou o rapaz.
- Onde ele estava?
- Um pato havia engolido ele ontem, e afortunadamente o levei para o cozinheiro e ao abri-lo encontrei o anel.
- Oh meu Deus! Peço-lhe mil perdões! Quase o condenei à morte por algo que jamais seria culpa sua. Obrigado meu querido! Pedirei ao meu marido que te dê uma boa recompensa por isso.

Naquele mesmo dia, poucas horas antes do almoço, o rei chamou o rapaz até a sala dos tronos e perguntou a ele o que desejava ter como recompensa. O pobre moço pediu apenas um bom cavalo e um pouco de dinheiro, pois seu maior sonho era viajar por todo o mundo e conhecer pessoas e culturas diferentes. Triste por saber que perderia seu empregado mais confiável, o rei ofereceu altos cargos a ele, tentando convencê-lo a ficar, mas o jovem recusou todas as propostas. Desta forma, o rei não pode fazer nada, a não ser dar a ele um cavalo, um saco de dinheiro e desejar boa sorte em suas aventuras.

3 – A viagem começa aqui:
O rapaz não demorou muito para iniciar sua viagem. Pegou a bolsa de moedas, amarrou-a no cinto, selou seu mais novo alazão e pegou uma velha espada que fora de seu pai. Juntou um pouco de pão e água para a viagem e foi se aventurar pelas grandes florestas da região.

Cavalgou por muitos lugares, visitou aldeias e belos castelos, conheceu pessoas de diversos tipos e experimentou iguarias de diversos lugares, mas nenhuma delas poderia continuar a mudar sua vida como a serpente branca do rei.

Certa vez, cavalgando próximo às margens de um rio, ouviu os lamentos de algum animal que estava preso em alguma armadilha. Procurou ao redor e encontrou três peixes presos em um caniço que lamentavam a morte lenta e dolorosa que os esperavam, já que se encontravam sem água. Ele já havia esquecido os poderes da serpente e foi àquela hora que se lembrou dos mesmos. Sentindo pena dos animais, o rapaz os retirou dali e devolveu às límpidas águas do rio. Agradecidos pela bondade do moço, eles disseram em uníssono:
— Vamos lembrar-nos disso e recompensar você por nos ter salvado.

O rapaz respondeu com um gesto de cabeça e acenou para os animais que desapareceram nas águas profundas do rio.


Continuando a viagem, novamente ele foi surpreendido por um grupo de animais. Desta vez as vozes vinham do chão, logo abaixo das patas de seu cavalo. Era um formigueiro que clamava por misericórdia, já que o equino pisoteava suas moradas. O rapaz recuou com o cavalo e pediu perdão ao rei das formigas pelo incidente.

Agradecido, o rei das formigas disse:
- Obrigado meu grande rapaz, nunca imaginamos que alguém poderia sentir piedade por nós, meras formigas! Vamos lembrar-nos disso e recompensar você por nos ter salvado.

O rapaz desviou a rota do cavalo, despediu-se dos pequenos animais e seguiu sua viagem. Já ao anoitecer, ainda estava no meio da floresta, e provavelmente chegaria à próxima cidade somente no dia seguinte. Acendeu uma fogueira, comeu alguns pães e pôs-se a descansar para continuar a viagem no dia seguinte.

A noite fora tranquila e ele dormira feito uma pedra. Estava completamente descansado e poderia encarar mais um dia inteiro de viagem. Quando estava terminando de arrumar suas bolsas e montando ao cavalo, ouviu vozes vindas de cima de um carvalho:

- Vocês não podem fazer isso conosco! Somos apenas filhotes!

Eram três corvos que estavam sendo jogados para fora do ninho pelos pais, que já não aguentavam mais sustentá-los e queriam que os mesmo aprendessem logo a voar, para que pudessem buscar seu próprio alimento. Os três corvos caíram da árvore como nozes podres e ficaram choramingando no chão. Mais uma vez a piedade do rapaz falara mais alto e ele resolveu ajudar os pássaros:

- O que posso fazer para vocês?
- Dê-nos o que comer senhor, e estaremos muito gratos!
- O que vocês comem?
- Comemos carne, moço!

Sem ter um único pedaço de carne para dar aos corvos, o rapaz teve de matar o próprio cavalo para alimentá-los. Os três corvinhos, já empanturrados de tanto comer, finalmente agradeceram e disseram:
— Vamos lembrar-nos disso e recompensar você por nos ter salvado.

Desta vez, prosseguindo a viagem à pé o rapaz demorou um bocado para chegar ao castelo mais próximo, e estava muito cansado quando terminou de cruzar a floresta. Entrou na pousada mais próxima e pagou 3 moedas de prata por um bom quarto e um jantar que não fosse pão velho. Após a refeição, subiu para o aposento alugado e dormiu como nunca, já que havia semanas que ele não dormia em uma cama macia.

4 – Os desafios reais:
No dia seguinte a cidade amanheceu sobre muito barulho e alvoroço: o rei estava mais uma vez desafiando os homens da cidade para ver quem seria o futuro esposo de sua filha. Mas para isso, uma tarefa muito difícil deveria ser cumprida e caso o infeliz não a conseguisse, seria condenado à morte.

O rapaz, tomado pela curiosidade, aproximou-se do aglomerado de pessoas e perguntou a um velho o que estava acontecendo. Ao ouvir a explicação do ocorrido o jovem se sentiu capaz de realizar a tarefa, mas não queria arriscar sua vida, sem conhecer o “prêmio” antes. Foi então que pediu ao rei se pudesse ver sua filha antes de encarar a empreitada. O rei não viu mal algum no pedido do mesmo e apresentou a ele sua filha. Uma belíssima moça loira, com a pele branca feito a neve e um belo par de olhos azuis acabara de conquistar o coração do jovem, que esquecendo das consequências de um possível fracasso, aceitou o desafio.

O rei pegou então um anel, atirou nas ondas do mar e disse ao pretendente:
- Encontre-o e a minha filha será sua, caso contrário, jogaremos você na água até que se afogue, e terá a morte como sua amada!

Sem saber o que fazer, o rapaz mergulhou e foi ao fundo procurar o anel. Mas nada encontrou. Já perdendo o fôlego, subiu até a superfície, respirou um pouco e quando ia mergulhar novamente, um guarda o chutou de volta à água. Mais uma vez foi até o fundo, mas nada encontrou. Ao subir para recuperar o fôlego, recebeu um segundo chute do guarda, ao chegar no fundo, dessa vez, encontrou três peixes e um deles carregava uma concha na na boca. Este a entregou ao rapaz e disse:
- Essa é nossa recompensa por ter nos ajudado aquele dia! Espero que tenhamos ajudado! – E nadaram mar adentro.

Ao retornar com a concha em mãos, o guarda já iria chutá-lo de volta quando viu o objeto. O rapaz abriu a concha e lá estava o maldito anel. Todos que ali estavam comemoraram a vitória do rapaz, e aplaudiram com entusiasmo seu feito. Até mesmo o rei se redimiu à conquista dele:
- Parabéns meu jovem! Você é digno de ser meu genro!

Entretanto, a princesa era soberba e muito metida para aceitar um noivo pobre como aquele. Desta forma, ela impôs mais um desafio ao rapaz: espalhou dez sacos de farelo de trigo em um campo de grama e disse que só se casaria com ele, caso conseguisse juntar tudo em uma única noite.
- Como irei juntar tudo isso? – pensou ele ao sentar no chão para descansar da última tarefa. Porém seu cansaço era tão grande que acabou adormecendo.

Acordou somente no dia seguinte, quando o sol já nascia no horizonte e iluminava seu rosto. Desesperado o rapaz se levantou lembrando que não recolhera o farelo, mas para sua surpresa os dez sacos estavam todos lotados, e nenhum grãozinho se encontrava no chão. Aos seus pés estava um bando de formigas e o rei delas disse ao rapaz:
- Este é nosso sinal de gratidão pelo que fizera por nós! Estamos gratos e acredito que tenhamos ajudado! Até mais, seu moço!

E assim as centenas de formigas foram embora, enquanto a princesa chegava ao local espantada ao ver que os dez sacos de trigo estavam completamente cheios. Ainda tomada pelo orgulho, ela desafiou o ex-empregado pela última vez, pedindo a ele que trouxesse um fruto da árvore da vida.
- Mas onde está essa árvore? – Perguntou ele.
- Sei lá! Vá procurá-la, ora bolas! – retrucou arrogantemente a princesa.

O rapaz mais uma vez sem saber por onde começar a busca, sentou-se em cima de um dos sacos de farelo e pôs-se a pensar. De repente ele escutou vozes vindas do alto e ao olhar para o céu azul avistou três pontos negros: eram corvos.
Eles carregavam duas maçãs douradas e atiraram elas aos pés do rapaz que ficou encantado com a beleza dos frutos.


- Ei, meu jovem! Lembra-se de nós? – Perguntou um dos corvos.
- Não, não me lembro!
- Somos os filhotes que você alimentou há alguns dias. E esse é nosso sinal de gratidão por ter-nos ajudado! Espero que estes frutos sejam úteis.

As maçãs douradas eram os tais frutos da árvore da vida. O rapaz as apanhou e levou até a princesa que dessa vez não teve mais ideias para recusar o casamento com ele. Ambos comeram os frutos juntos e consequentemente sentiram uma paixão sem igual. Casaram-se e viveram por muito tempo juntos, numa vida de amor que invejaria muitos casais por todo o mundo.


In memoriam, Pato e Cavalo brutalmente assassinados

Adaptado de:
Contos de Grimm: Animais encantados - Grimm: Jakob & Wilhelm - Tradução e adaptação de Ana Maria Machado

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