segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Thor: Representação Mitológica vs Marveliana

Repare os ricos detalhes dessa representação de Thor que viaja pelos céus em sua carruagem puxada por dois bodes. Além disso, ele utiliza o cinto e o seu poderoso Martelo. Barba e cabelos ruivos.

1 - Introdução:
Nos últimos anos, graças ao impulso gerado pela indústria cinematográfica que vem explorando a temática medieval e essencialmente os povos vikings, a mitologia nórdica tem adquirido grande renome entre a cultura pop. Seriados e filmes sobre os piratas escandinavos, sua religião e é claro, a adaptação do deus Thor e demais divindades pela famosa "indústria" de Super Heróis, Marvel. Com isso, pretende-se nesse artigo, abordar sucintamente, as diferenças entre as duas principais representações do deus do trovão: a mitológica e a marveliana.

Thor o poderoso deus do Trovão e filho mais velho de Odin é uma das divindades mais famosas de toda a mitologia nórdica. É o mais forte de todos os deuses e homens, e detém três objetos valiosíssimos. O primeiro era o célebre martelo Mjölnir utilizado pelo deus viking para derrotar os gigantes de gelo. O segundo objeto mágico de Thor era um cinto que lhe conferia força sobre-humana duplicando a eficácia de seus golpes com Mjölnir. O terceiro e último objeto era um par de luvas tão mágicas quantos os outros utensílios. Elas aferiam a Thor mais habilidade de manejo do martelo e mais vigor durante as batalhas.


Vale destacar também que Mjölnir era um martelo peculiar no que diz respeito à forma: muito grande na ponta com uma cabeça larga e espessa, com um cabo muito curto. Além disso, outro diferencial do martelo é que ele não era utilizado apenas em ataques corpo-a-corpo, podendo ser lançado contra o inimigo a longas distâncias. Segundo as lendas, Mjölnir jamais errava o alvo quando atirado e após atingi-lo retornava imediatamente para a mão de seu dono. 
Mjölnir

Thor era marido de Sif, a deusa da colheita, com quem teve a filha Thrud. De sua união extraconjugal com a giganta Jarnsaxa, teve os filhos Magni e Modi. Os antigos escritores identificaram Thor com o deus Greco-Romano Zeus, pois ambos eram deuses essenciais, comandantes dos raios e trovões, protetores do mundo e da sociedade, cujo emblema era o carvalho, representando o tronco da família. Os animais de ambos os deuses era o carneiro, o bode e a águia. O deus viking era sempre representado portando seu martelo enquanto o grego sempre empunhava seus poderosos raios. Thor eliminou a serpente Jormungand e Zeus o dragão Tifão. O historiador Tácito comparou o deus nórdico com o herói Hércules, por causa de seu aspecto, força, arma e função de protetor do mundo.

Thor muita das vezes estava acompanhado de Loki e gostava de sua companhia, apesar deste trapaceiro ter uma certa habilidade para atrair confusões. No panteão nórdico, Thor era o inimigo da maldade e o segundo maior membro dos deuses Aesir. A imagem de Thor aparece em muitas lápides rúnicas assim como seu nome ou seu martelo. Segundo o Edda em Prosa, Thor é um extraordinário guerreiro e derrotou terríveis criaturas dentre elas: gigantes, trolls, serpentes, feras, etc. Thor viajava pelo mundo numa carruagem guiada por dois bodes chamados Tanngrísnir e Tanngnjóstr. De acordo com as lendas, quando Thor atravessava o firmamento nessa carruagem, as montanhas tremiam e o barulho gerado pelas rodas do veículo traziam os trovões.

Graças a Thor, a quinta-feira em países anglo-saxões que tiveram contato com os escandinavos, passou a ser chamada Thursday, o dia de Thor.



2 - A Imagem de Thor influenciada pelos Quadrinhos:
Para realizar tal capítulo iremos trabalhar em consonância com o artigo do Professor Johnni Langer – As representações do deus Thor nas HQs. Um grande especialista brasileiro em cultura viking e história medieval. No artigo o professor Langer utiliza como base de análise os famosos quadrinhos, incluindo Thor: filho de Asgard, uma versão mais atual e a qual enfatizaremos.

A mitologia sempre mexeu com o imaginário dos humanos modernos. Histórias épicas sempre foram encantadoras para nós que vivemos numa sociedade cercada de “normalidades”. Na nossa sociedade ocidental, a mitologia greco-romana sempre se destacou mais, obviamente, pela influência dessas civilizações no nosso modo de vida atual. No entanto, nos últimos anos, graças aos meios de entretenimento, vem-se criando um grande grupo de leitores aficionados em mitologias dos mais diversos tipos, com destaque para a nórdica que nos últimos cinquenta anos alavancou de maneira apreciável.



Muito desse crescimento da cultura nórdica de massa vem, especialmente, dos famosos quadrinhos da Marvel Comics sobre o deus Thor. Sem dúvida isso foi muito importante para a divulgação da cultura escandinava em todo o mundo ocidental, porém algumas representações “errôneas” vieram a calhar, inevitavelmente. Como o próprio nome diz, os HQ's são meios de entretenimento e obviamente teriam de apresentar adaptações para chamar a atenção do público e nem mesmo o tão poderoso deus Thor, deixou de sofrer certas modificações.

O Thor apresentado pelo Marvel possui certas diferenças significativas se comparado com o Thor tradicional das fontes medievais da Escandinávia. De um modo geral, o Thor dos quadrinhos é apresentado loiro e muito das vezes sem barba, enquanto o original é ruivo e cultivador de uma longa e espessa barba. Outro aspecto interessante é a ausência das luvas e o cabo relativamente longo do Martelo Mjölnir que como sabemos era curto e segundo as principais fontes medievais era do tamanho exato do punho do deus.



Além de tudo, Thor utiliza nos HQ’s um capacete adornado de asas, o que na verdade é uma imagem errônea que se adquiriu tanto do deus quanto do povo viking. Sem falar na aparência jovial do mesmo, que aparece nos quadrinhos durante a adolescência, sendo que nas fontes originais não existe qualquer referência à infância e à adolescência de Thor, ademais costumeiramente representado como um homem de meia idade.

Outra feição importante destacada por Johnni é a estética futurista que os HQs e o desenho animado da década de 60 apresentam, tanto no cenário quanto nas roupagens dos personagens. Já nos HQ em questão, os traços realizam uma mistura de uma estética de jogos de RPG aliada a uma representação fantástico-medieval, inspirada nas obras de Tolkien, retirando ainda mais os referenciais nórdicos da história. Um exemplo espetacular apresentado no artigo do professor é a personagem Sif, esposa de Thor, que nos HQ's aparece com a pele morena, audaz e grande arqueira, além de roupas curtas. Tal visão se assemelha mais com a Guinevere interpretada pela atriz Keira Knightely em o Rei Arthur(2004) do que com a visão original de Sif, que é tipicamente loira, muito ligada às funções domésticas e sem qualquer vocação para guerra. Além disso, a Sif tradicional trajava roupas que condizem com a cultura viking: vestido longo que cobria todo o corpo.

Quanto à orientação geográfica das séries, não há o que questionar, pois ambas apresentam os locais corretamente: Ponte Bifrost, Asgard, Valhala, reino dos gigantes, etc. Contudo o quadrinho foi além do mundo apresentado pela mitologia escandinava e inseriu locais inexistentes na mesma.


Thor e Sif no segundo filma da franquia do herói marveliano

Outro aspecto que sempre gosto de enfatizar nas representações de guerreiros e deuses vikings são os elmos adornados com chifres. Em nenhum momento e pesquisa arqueológica descobriu elmos vikings corneados. O elmo nórdico era tipicamente cônico e sem qualquer chifre. Esta visão errônea foi transferida durante séculos e acabou alojando no imaginário popular. Logo, tanto as divindades nórdicas quanto os próprios nórdicos não utilizavam esse tipo de equipamento.

Enfim, os erros e distorções aparecem em grande número e por isso vamos nos ater apenas aos supracitados. Para os mais curiosos indico a resenha completa de Johnni que se encontra nos referenciais deste artigo. E para aqueles que realmente gostam do personagem aconselho esquecer um pouco a visão dos quadrinhos e buscar mais aquele que compõe o panteão de deuses escandinavos, sem é claro, desmerecer o herói e sua importância para a divulgação da mitologia nórdica.

3 - Conclusão:
Thor era um dos deuses mais adorados pela sociedade nórdica. Acredita-se que fosse mais venerado que o seu próprio pai, o deus Odin. A história de Thor é extremamente fascinante e levaria qualquer mero mortal a viajar para mundos divinos, infestados de criaturas sobrenaturais, seres mágicos e muito mais. Apesar da visão distorcida que os quadrinhos têm colocado no imaginário ocidental, não podemos negligenciar a importância dos mesmos na primeira visão que dão ao público que desconhece o enredo tradicional. Todavia aconselho a buscar um pouco mais sobre a versão original que pessoalmente, considero muito além da marveliana.



Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno
Referências:
O Livro de Ouro da Mitologia - Thomas Bulfinch
FRANCHINI, A.S. As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica. Ed. Artes e Ofício. Porto Alegre, 2011.

3 comentários:

  1. Ótima matéria amigo! Que o blog continue sempre com essa ótima qualidade!

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  2. Olá, gostaria de ver aqui no blog um post sobre a Irlanda...Um dos últimos redutos celtas do mumdo. Obrigado!

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