quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Principais Modelos de Escudo da Baixa Idade Média


Desde o surgimento da espécie humana sobre a face da terra, a guerra tem sido praticada. Desde o mito bíblico de Caim e Abel até os exatos minutos do dia de hoje, alguma guerra está acontecendo em algum lugar. Sem dúvida, a violência tem sido uma marca da humanidade. Mesmo entre os primeiros seres humanos, naturalmente, havia um ímpeto ou mesmo um instinto de proteção contra ameaças pessoais. Ameaças externas sempre existiram, seja por parte de outras espécies ou mesmo por conflitos sociais. Com a junção da necessidade de proteção e a capacidade humana de criar ferramentas, eis que surge um dos itens mais famosos de nossa história bélica, o escudo. Alguns brilhantes homens da pré-história tiveram a ideia de criar um dispositivo de proteção pessoal, que pudesse bloquear golpes de armas, ataques de animais e projéteis.

Tal como acontece com qualquer outro item já inventado, o escudo começou como um instrumento bruto. Placas de madeira sem qualquer refinamento foram usadas para proteção, algumas mais eficazes, outras menos e com isso, diferenças eram criadas entre os escudos, alguns feitos com material mais resistente, outros mais frágeis. Com o tempo, um refinamento incremental serviu para melhorar gradualmente a concepção e construção do escudo. Durante muito tempo fabricou-se escudos de madeira, couro e fibras vegetais, mas a maior revolução ocorreu na antiguidade, quando surgiram os primeiros escudos com revestimentos metálicos ou mesmo de metal puro, que mesmo assim eram peças pouco uniformes e de aspecto rudimentar. Mas foi no período medieval, que a arte se uniu à guerra e os escudos tornaram-se verdadeiras obras de arte.

Surgiram diversas variações de formas e funções, além de pinturas representando santos, passagens históricas, símbolos heráldicos e muito mais, assim os escudos tornaram-se fundamentais no arsenal de qualquer soldado.

I - Materiais dos Escudos:
Nenhum escudo medieval era exatamente igual a outro. Cada escudo era feito artesanalmente e sobre encomenda pessoal, para uma função específica, pois cada escudo era composto de diferentes materiais e construídos de maneira única. Os materiais mais comuns utilizados em escudos medievais eram a madeira e couro animal. Muito embora, na Idade Média tenha-se progredido no trabalho com metais diferentes que também compunham muitos dos escudos, principalmente para homens nobres e ricos.

Cada escudo foi construído para atender a uma finalidade específica para o soldado que iria utilizá-lo. Se o soldado contava com armaduras e armas pesadas, o escudo, provavelmente, deveria ser pequeno e leve, para não dificultar ainda mais a mobilidade já prejudicada pelo peso das armaduras. Um cavaleiro em uma armadura completa e montado não poderia carregar um escudo muito comprido ou iria ter dificuldades em manejá-lo sobre o cavalo. Obviamente, um arqueiro usava pouca armadura e teria de ser ligeiro. Para arqueiros, desenvolveram-se escudos grande comprimento, a fim de fornecê-los uma cobertura ampla a projéteis enquanto carregavam seus arcos e bestas, protegendo de projéteis inimigos.




II - Partes Importantes dos Escudos:
a) Bossa:

Uma das seções mais importantes dos escudos medievais era a chamada bossa (boss). Ela é a parte central redonda, geralmente mais resistente que o restante da peça, sendo crucial para uma boa defesa contra ataques pesados. Devido a sua importância, era feita com materiais mais resistentes que o restante do escudo, essencialmente de metal ou uma madeira reforçada. Era fundamental na defesa contra flechas e armas pesadas, como machados. Também ficou conhecida como umbo.


b) Bouche e correias:

Outras duas partes importantes do escudo era a "bouche" (boca) e as braçadeiras ou correiras. A Bouche o nome dado ao sulco ou entalhe na parte superior, onde o guerreiro poderia descansar a lança ou a lâmina da espada antes do ataque. As braçadeiras são as partes traseiras, feitas de couro, para apoiar o escudo ao antebraço. Antes do período medieval, poucos modelos de escudos usavam esse dispositivo, tendo apenas uma correia central que era agarrada com o punho, o que dificultava na hora de manter o protetor firme e junto ao corpo. As braçadeiras inovaram a forma de segurar a peça, deixando o seu manuseio mais prático e eficiente.



c) Brasão de Armas:

Embora essa "parte" não seja em si essencial, como as outras três acima, devemos destacar que durante muito tempos os brasões foram muito utilizados nos escudos medievais. O Brasão de Armas consistia basicamente em figurava pintada ou talha na área central do escudo, sendo seu principal objetivo, facilitar a identificação dos guerreiros em batalha. Com o brasão, podia-se distinguir quem eram os aliados e os adversários em meio à confusão dos embates. Para a nobreza e ordens de cavaleiros, como os templários, o brasão era considerado indispensável, pois eram símbolos que demonstravam a quais grupos eles pertenciam, suas casas e famílias.

III - A Evolução dos Escudos:
No início da Idade Média, os escudos e armaduras ainda eram bem grosseiros. Metais ainda não eram amplamente utilizados e por isso eram comuns armaduras e escudos feitos de madeira e pele animal. Os escudos tendiam a ser objetos pequenos e redondos que serviam minimamente para defesa de curto alcance. Com o passar dos séculos e as guerras infindáveis, os avanços na tecnologia bélica foram inevitáveis, novos tipos de armas foram desenvolvidos, armas antes frágeis foram aprimoradas, o aparecimento das balestras, machados de guerra e entre outras armas que podia facilmente destruir ou atravessar um escudo, consequentemente surgiu a necessidade de desenvolvê-los, deixando-os mais eficientes e robustos.

Diferentes formatos e tamanhos de escudos foram adaptados, cada um para servir a um propósito específico. Características tais como alças foram adicionadas aos escudos, a fim de torná-los mais práticos no campo de batalha. Novos métodos de guerra exigiam continuamente revisões de projeto do protetor manual e com isso diversos tipos surgiram. Vamos então conferir os principais tipos de escudos empregados durante a era medieval.

Guerreiro Normando século X

1 - Escudo "Pipa" (Kite Shield)
Como supracitado, na Alta Idade Média, os primeiros escudos eram leves e tendiam a ser pequenos, mas excetuando-se à regra, havia o escudo kite que era um pouco maior que os demais e entrou em uso no século X, no qual foi amplamente utilizado e perdurou até o século XIII. O kite foi adaptado para que o soldado pudesse proteger a dianteira de suas pernas durante o combate. O escudo em si era mais largo na parte superior e afunilava para baixo, semelhante ao formato de uma gota. Muitos desses escudos possuíam uma curvatura gradual, de modo que seria melhor se ajustar ao contorno do corpo soldados.


Uma inovação que foi adicionada à estrutura do kite shield, foi um reforço na blindagem no ponto onde se encaixava o antebraço e a mão. Tal reforço era feito com enormes tiras de couro que permitiram o cavaleiro ou soldado para anexar o escudo ao antebraço, em vez de tentar segurar uma cinta com seu punho. Funcionalmente, esse dispositivo diminuiu bastante a probabilidade de o soldado perdê-lo ou deixá-lo cair, fator de suma importância no calor da batalha.


O escudo kite é o tipo de escudo que ganhou destaque na tapeçaria de Bayeux (Figura acima), uma tapeçaria medieval que narra a invasão normanda da Inglaterra em 1066. Assim, o escudo pipa (tradução literal) tem uma associação forte com o estilo normando de armadura e de guerra, um estilo fortemente utilizado pela cavalaria.


2- Escudo Heater (Heater Shield)
Até o século 13, a armadura corporal tinha vivido um aumento acentuado na eficácia e durabilidade. Se a armadura usada por um soldado poderia dar conta de boa parte do trabalho defensivo, certamente, o escudo pode ser adaptado uma vez mais. O escudo heater  foi uma versão revista do escudo kite. A armadura da baixa idade média permitiu que o escudo pipa diminuísse de tamanho e sua forma levou historiadores posteriores a apelidarem-no de "escudo aquecedor" (em tradução literal), provavelmente uma alusão aos ferros de passar roupa.


Este tipo de protetor é amplamente conhecido como o modelo utilizado nos símbolos heráldicos. Aos poucos, os escudos ficaram obsoletos, enquanto as armaduras tornavam-se cada vez mais eficazes, mas o heater shield teve continuidade, sendo preservado para fins cerimoniais na Baixa Idade Média.



3 -  Pavise
O último tipo de escudo medieval que vamos cobrir, ficou conhecido como pavise. Mais comumente usado por arqueiros, o pavise era um escudo grande, de forma convexa que era usado como uma proteção de corpo inteiro. Arqueiros e besteiros o utilizavam largamente, pois ficavam situados em posições mais altas, distantes da batalha principal, raramente usando armaduras pesadas. Assim a falta de armadura exigiu um grande escudo onde pudessem se abrigar dos tiros inimigos, função esta que o pavise cumpriu com excelência.

Quando o arqueiro ou besteiro estava em posição para batalha, o pavise era "plantado" na terra por meio de um espigão ligado ao fundo do escudo. Desta forma, o soldado era capaz de atirar de pé e "recarregar" seu arco ou balestra com uma nova flecha/seta agachado atrás do escudo, protegendo-se do fogo inimigo. Alças fixadas na parte traseira do escudo permitiam agarrá-lo e mover para outra posição, ou mesmo, em último caso, usá-lo como proteção a golpes diretos.



Como a área da superfície do pavise era grande, corriqueiramente utilizavam-na como tela para pinturas. Muitos exemplos de pavise traziam o brasão de armas da na qual fora fabricado. Outros tinham pinturas de símbolos religiosos sobre a superfície. Ao contrário dos demais escudos que já no fim da Idade Média tornaram-se obsoletos, o pavise continuou a ser utilizado pelos europeus, devido ao fato de que o arco e flecha só ter sido dispensado completamente dos campos de batalha no século XVIII, quando as armas de fogo já se encontravam bem desenvolvidas e mais mortíferas.


3 - Broquel (Buckler)
O broquel era um tipo de escudo muito comum adotado especialmente pelos soldados a pé, durante o período da Baixa Idade Média. De todos os modelos clássicos, este era o menor e mais prático. Seu diâmetro variava entre 6 e 18 polegadas (15 cm a 45 cm) e podia ser segurado apenas com mão não precisando de apoio no antebraço. Geralmente, o broquel tinha formato redondo, embora tenha-se documentando a existência de exemplares de uma forma retangular. O nome buckler deriva do francês antigo bocle que significa bossa.


O pequeno tamanho desse tipo de escudo permitia uma fabricação utilizando de materiais mais pesados, tanto que eram feitos de metal puro, ligas metálicas ou madeira com revestimentos e adornos de metal, sendo muito resistente contra adagas, espadas e lanças. O broquel provou ser um instrumento de defesa muito eficaz quando combinado com espadas curtas em combates corpo a curta distância. No entanto, devido ao tamanho muito pequeno, o buckler era praticamente inútil contra armas de arremesso, como flechas.

Utilizado em larga escada por espadachins e em duelos, o broquel servia especialmente para proteger a mão que não empunharia a espada, além de ser utilizado para bloquear golpes de lâminas.


4 - Targe
O targe era uma variação do broquel redondo medieval que se tornou intimamente associado com o guerreiro escocês. Ademais, havia também uma variação conhecida por rodela, em espanhol, ou rotella em italiano, muito difundido no período renascentista. Normalmente, o targe era um escudo ligeiramente maior do que o broquel, mas que se utilizava da mesma maneira. A fabricação da rodela era bem complexa e especialmente, por causa dos detalhes e da decoração. Alguns targes escoceses que resistiram ao tempo são classificados como os escudos mais bonitos da época. Eles normalmente eram construídos de madeira e encapados com couro preto. A frente do targe era possuía uma bossa cravada seguindo um estilo celta, em outros a bossa era em formato de espeto e projetava-se para frente, podendo ser utilizada para perfurar o adversário.


Este modelo foi utilizado na escócia do século XII até o século XVIII, período este em que o escudo já havia desaparecido do contexto militar de várias nações. A maioria dos exemplares que sobreviveram datam do século XVI ou posteriores, tendo poucos mais antigos que isso.


A maioria dos targes sobreviventes parece ter sido feita a partir de carvalho ou pinho. Os exemplares de carvalho, em geral, eram um pouco mais finos, provavelmente pelo fato de o carvalho ser mais pesado. Em targes médios, a espessura ficava em torno de meia polegada. Alguns targes danificados e outros que foram submetidos a inspeção por raio-X revelaram que todos eram construídos de duas camadas. Cada camada consistia de número irregular de placas de madeira unidas. As placas possuíam larguras diferentes e eram colocadas transversalmente à camada anterior. As camadas ficavam unidas por linhas concêntricas de estacas de madeira. Eles também eram normalmente preenchidos com cabelo, palha, pele animal, etc. sob a parte do apoio do braço do usuário.

Referências:
The Shield: An Abridged History of its Use and Development - An article by Patrick Kelly, Greyson Brown, Sam Barris, Nathan Bell, Bill Grandy, and Alexi Goranov
www.hubpages.com
www.medievalchronicles.com
www.medieval.stormthecastle.com
www.medieval-life-and-times.info
www.armstreet.com

Um comentário:

  1. Um mais legal que o outro! A Baixa Idade Média é um período fértil em histórias em romantizações, haja vista os romances de cavalaria... e o que seria de um cavaleiro sem seu escudo? hehehehehehehehe

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