quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Uma breve história sobre as festas de Todos-os-Santos, Samain e Halloween


É de nosso conhecimento que várias das comemorações realizados atualmente sejam ressignificações de festividades há muito reproduzidas. O fim do mês de outubro e o início de novembro são marcados pelo célebre Halloween/Samain (Samhain, gaélico escocês), o Dia de Todos-os-Santos e Dia de Finados. Embora muito tenham se modificado, e haja toda uma indústria por trás destas celebrações, não se pode negar sua origem céltica e a forma como uma realidade cultural tão distante sobreviveu até nós em pleno século XXI. Não nos importa, no presente artigo as influências da indústria moderna nas celebrações em questão, mas sim os mitos que as embasam, de forma que, sem a compreensão desse corpo mitológico, torna-se impossível sua plena apreensão.


Nos tempos primitivos, os mitos constituíam os alicerces da crença religiosa celta e não obstante, formavam o baluarte das suas festividades e rituais. Os bretões deram ao mês de Novembro o nome de “miz du”, o ‘mês negro’, no qual o hemisfério norte é marcado pela aproximação do inverno e início da estação em que o sol começa a declinar rumo ao sul, aumentando o número de horas preenchidas pela escuridão noturna. No intervalo entre as duas estações (no dia 1 de Novembro), apresenta-se uma festa que os irlandeses denominaram Samain. Esta, ao longo do período medieval, foi adaptada pelo catolicismo, transformando-se no célebre Dia de Todos-os-Santos, que antecede a celebração de todos os Finados (dia 2 de Novembro).



Qual o motivo desses festejos? Segundo a tradição celta, a noite transicional entre os dias 1 e 2 de Novembro assinalava o abertura de um novo ano. Os antigos celtas acreditavam que, nesta noite, as portas do outro mundo jazessem abertas. Desta forma, os espíritos dos mortos poderiam esgueirar-se no mundo dos vivos, da mesma maneira em que os vivos podiam adentrar no mundo além da vida. Esta permuta entre os dois mundos, uma verdadeira marcha das almas, está latente em numerosas lendas reminiscentes da comemoração de Todos-os-Santos, e até se pode dizer que este breve transitar seja a essência de todo o imaginário celta.

Segundo Philippe Walter, em um dos antigos textos mitológicos irlandeses, intitulado “A Doença de Cuchulainn”, o Samain é a data fatídica, durante a qual o herói Cuchulainn pretende capturar dois pássaros brancos em um lago. Sem desconfiar de nada, o homem atira seu dardo contra uma das aves, atingindo-a em uma das asas, mas mesmo assim, os dois pássaros escapam-lhe, desaparecendo debaixo das águas. Então, Cuchulainn decide esperar pelo possível retorno dos animais, acabando por adormecer na beira do lago. Neste momento, duas mulheres se aproximam dão-lhe uma boa surra, deixando-o em estado letárgico por um ano. Validamente, os dois pássaros, ou melhor, as duas mulheres-pássaros, eram fadas, isto é, divindades do outro mundo, vindas para vingar-se de Cuchulainn, por causa da afronta que tinham passado. Foi assim que em pleno dia do Samain, tempo fatídico, o herói Cuchulainn encontrara as deusas do outro mundo, para sua infelicidade.



Este conto antigo, em que acabamos de reconhecer o tema do Lago dos Cisnes, que o bailado de Tchaikovski tornara célebre, comprova a sobrevivência medieval das velhas crenças célticas de Samain.

Com obviedade, o cristianismo católico medieval buscou apossar-se dessa remota festa céltica. Em 737, o Papa Gregório III teve a importante ideia de criar um serviço religioso em homenagem a todos os santos que não podiam ser celebrados no transcorrer dos demais dias do ano. Assim nascera a famosa festa de Todos-os-Santos, no entanto, sem ganhar uma data predeterminada. Por isso, foi preciso esperar pelo ano de 837, em que o rei Luís, o Piedoso, ordenara que aquela festa de Todos-os-Santos fosse celebrada no dia 1 de Novembro, na Gália e na Germânia. O Dia dos Finados (ou comemoração dos mortos) só seria instaurado dois séculos mais tarde, nos anos finais do século X, quando um abade do mosteiro de Cluny convidou todos os conventos daquela mesma dependência a rezar no dia 2 de Novembro para o descanso das almas do Purgatório.



Embora o cristianismo celebre as duas festas (tanto a dos Santos quanto a dos Finados de maneira independente), a cultura popular as sintetizam em algo único, onde uma é complemento indispensável na realização da outra,pois ambas servem para ocultar os resquícios da remota festa céltica das almas regressadas do mundo de Além e das fadas.

“Nos nossos dias, a noite de Todos-os-Santos ao dia 2 de Novembro, continua repleta de lendário arcaico. Na Bretanha o temor inspirado pela 'Carroça da Morte'' ainda continua a assombrar muitos espíritos. Em 'A lenda da morte entre os Bretões armoricanos' por Anatole Le Braz fervilham contos, lendas e anedotas no tocante àquela misteriosa carroça, lançada a toda a velocidade, com um barulho infernal, vazia, sem o respectivo carroceiro nem os passageiros, e que os desditosos viajantes perdidos encontram para a sua desgraça. Com efeito, costuma dizer-se que aquela carroça é pertence da Morte (Ankou em bretão) e que ela leva todos aqueles que a virem.”



Por outro lado, a festa norte-americana do Halloween, na noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro reconstrói abertamente a antiga tradição céltica das almas regressadas do mundo pós-morte, segundo a tradição de Samain. As bruxas tornam-se o ícone da festa, graças à grande repercussão delas durante a Idade Média, como seres diabólicos servidoras do próprio demônio. Fantasiados de “espíritos da noite” para invocar os espectros dos mortos ao mundo dos vivos, as crianças vão dando a volta pelas residências da vizinhança, segurando abóboras iluminadas com as velas acesas e pedindo um tributo aos vivos, para que eles não sofram o infortúnio gerado pelos espíritos. Apesar de ter-se tornado num domínio reservado às crianças disfarçadas em bruxas, a festa de Halloween prossegue sua evocação do medo, especialmente, quando aliada as atuais adaptações cinematográficas e seus enredos macabros.

Seria tudo isso apenas uma adaptação de uma velha cultura pela indústria? Certamente que sim, mas também é a prova unânime de que alma celta não perecera ante os mitos modernos e continua viva na cultura ocidental por séculos!



Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Referencial:
As festas de Todos-os-Santos, Samain e Halloween - Philippe Walter - Professor catedrático de Literatura francesa da Idade Média junto da Universidade STENDHAL de Grenoble (França)

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