sábado, 31 de outubro de 2015

A Lenda do Saci e sua Resistência aos Mitos Modernos


Um negrinho de uma perna só, dono de um gorro vermelho e assíduo fumante de cachimbo, cujas traquinagens transcendem os séculos e adentram o imaginário popular, especialmente o rural, até hoje. Esse é o Saci, personagem célebre de nosso folclore, imortalizado por Monteiro Lobato em “O Sítio do Pica-pau Amarelo”. Sua lenda se originou da mistura entre as culturas indígena, africana e portuguesa, sendo os relatos mais antigos atrelados a esta primeira. Suas atuais características provêm da cultura popular fundamentada na sociedade escravocrata do século XVIII, quando os caboclos-velhos e as amas-secas contavam às crianças os relatos de suas travessuras, impondo um medo inocente que servia como auxílio à obediência aos mais velhos.

O nome oriundo do tronco linguístico Tupi Guarani, sa'si matintape’re, surgido provavelmente no Sul do país, quase na fronteira paraguaia, com o passar dos anos e a influência de outras línguas e culturas, tornou-se Saci Pererê, uma variação do mito usada para identificar o menino de pele negra e uma única perna, que sai pelas matas e campos saltitando, assustando o gado, dando nó nos rabos dos cavalos, trançando suas crinas e invadindo as cozinhas das casas para derramar sal, leite e comida pelo chão.


De maneira geral, o Saci é considerado uma entidade inofensiva, caracterizada apenas como brincalhona demais, mas em algumas variações da lenda, é demonizado, designado como um ser maligno e perverso, possuindo até um rabo ou mesmo chifres em alusão ao tinhoso.

O gorro vermelho que lhe cobre a cabeça é uma clara influência da cultura portuguesa, o píleo, espécie de chapéu utilizado pelos portugueses e o lendário monstrinho trasgo, típico do folclore lusitano. Tal objeto conferia-lhe poderes mágicos, como o de transporta-se para qualquer lugar e tornar-se invisível quando se sentia ameaçado. Quando desaparecia, criava um redemoinho de vento, jogando poeira e folhas no ar, sendo fácil identificá-lo, embora difícil de capturar. Àquele que fosse destemido e habilidoso o suficiente, bastava um rosário ou uma peneira de taquara para capturá-lo. Quem conseguisse remover sua carapuça seria beneficiado com pequenos favores oferecidos em sua troca. Mas se o responsável por sua captura quisesse mantê-lo aprisionado, bastava colocá-lo em uma garrafa e marcar a rolha com uma cruz. Pronto, ele nunca conseguiria sair dali.


Existem, segundo as lendas, três tipos de Saci: o Pererê, que é o negrinho, o Trique, moreno como os índios, e o Saçurá, que tem penetrantes olhos vermelhos. Na região Norte do Brasil, é associado a um curumim que anda numa perna só e possui cabelos da cor do fogo. Ademais, dizem que é companheiro de uma velha negra maltrapilha, famosa por seu assobio melancólico acusa em seu nome: Mati-Taperê (ou Matinta Pereira). Alguns acreditam que é filho do Curupira, outros o apontam como um pássaro cujo assobio arrepia até a alma e dificilmente se sabe de onde vem. Além disso, dizem também que possui as palmas das mãos furadas e não ser capaz de atravessar córregos e riachos. Quando perseguido por um Saci, basta jogar no caminho ou no redemoinho uma corda com nós, assim ele será obrigado a parar para desatar os nós e a pessoa terá chances de fugir.

Na introdução do livro "O Saci-pererê: resultado de um inquérito", de Monteiro Lobato, Márcia Camargos diz que "produto da imaginação coletiva, ele representa, para Lobato, uma necessidade 'psicológica' de explicar inúmeros fenômenos cujas causas naturais escapam à compreensão das pessoas comuns."

Contudo, faço uma indagação, a você amigo leitor: onde está o nosso camarada Saci? Por que não se ouve mais falar dessa figura tão importante para nossa cultura? 

Primeiramente, antes de tentar responder, lembremo-nos que hoje, dia 31 de Outubro, é celebrado nacionalmente o "Dia do Saci", criado a partir do Projeto de Lei Federal nº 2.479, de 2003, que visava criar tal data com uma proposta de resistência à entrada do Halloween e da americanização forçada por essa festividade, valorizando os elementos da cultura nacional. Um trecho curioso do Projeto de Lei que justifica sua criação pode ser visto no terceiro parágrafo da Justificação: "No 'Manifesto do Saci', a conclamação em torno da figura do Saci e seus amigos, vem da absoluta convicção de que a cultura popular é um elemento essencial à identidade de um povo. (...) O Saci é reconhecido como uma força da resistência cultural à invasão dos x-men, dos pokemons, os raloins, e os jogos de guerra. A escolha do dia 31 de outubro, que tem sido imposto comercial e progressivamente aos brasileiros como o Dia das Bruxas ou o Dia do Halloween, não dizendo absolutamente nada sobre o nosso imaginário popular cultural, como o Dia do Saci, é assim estratégica, proposital, simbólica".

Ilustração da capa do livro Saci-pererê: Resultado de um inquérito
O projeto de lei supracitado vem corroborar para reavivar os mitos da cultura brasileira, haja vista a forte pressão que as culturas da globalização vêm fazendo sobre as geração mais jovens, extremamente conectadas à internet e ao mundo virtual. Com o acesso a essa cultura globalizada e tecnológica, o Saci e outros personagens folclóricos tradicionalmente difundidos pela oralidade das zonas rurais, estão desaparecendo e ficando cada vez mais esquecidos. Daniela Borges, em assim observa em seu artigo: "Originalmente, o Saci é uma entidade mitológica que vive no mato. Com a expansão capitalista, o mato foi cedendo lugar às estradas, ferrovias, fábricas e com o isso o Saci ficou desabrigado, sendo obrigado a se mudar para a cidade. Essa realocação, entretanto, deixou-o perdido e desamparado. E isso foi mais um fator colaborativo para que ele caísse no esquecimento e fosse superado por outras formas de manifestação cultural". Obviamente ela faz uma alusão à forma que os mitos rurais foram perdendo seu "habitat" e deram lugar às lendas urbanas que cada vez mais se espalham pela internet.

Sendo assim, a Taberna Do Fauno, tenta contribuir com esse pequeno artigo, com a difusão dessa lenda importantíssima para nossa cultura e acima de tudo, tentar desvincular um pouco com a moderna imposição comercial do Halloween, que a bem da verdade, nada tem a ver com nossa história. Proponho então, que troquemos as abóboras, bruxas, corvos e esqueletos, por nossos Sacis, Curupiras, Caiporas e Mulas-sem-cabeça.


Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Referências:

Maria José de Castro Alves – Lendas e mitos do Brasil – Belo Horizonte, 2007
O Saci e a Globalização - Daniela Cristina Matos Borges

Imagens:

3 comentários:

  1. O Senhor é meu Pastor e nada me faltará! Isso é falta de fé no nosso Senhor Jesus Misericordioso, somente os pecadores como vocês e suas esposas e maridos, filhos e filhas,mães e pais, passam por isso e a cura é somente por parte de Deus. Quem não tem fé suficiente sofre desse jeito, com o pecado comendo a carne em vida, vocês que comentam aqui também são pecadores, se arrependam dos seus pecados enquanto tem tempo, Jesus está voltando. Sejam dizimistas assim como eu, procure a IURD e entreguem seus corações a Jesus, não tenham medo de entregar sua vida, aprenda a desapegar dos bens materiais. Leiam os livros do Bispo Iluminado Edir Macedo: Nada a Perder! É sensacional, um exemplo a ser seguido. Não sejam hipócritas e reconheçam que vocês estão todos errados e vivem no erro e na ilusão. Que Deus Todo Misericordioso tenha piedade da alma suja e da vida pecaminosa de cada um de vocês! Amém!

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    1. Mais um idiota que tirou o dia pra arruinar a sua religião. Se tivesse lido o texto, veria que a imbecilidade que escreveu em nada se relaciona com a opinião. E, se não for pedir demais, já que é metido a tarado religioso, conserte o texto e dê certa estrutura lógica a ele, i.e, num momento vc fala que o Senhor em tudo te proverá e no outro solicita que paguemos dízimo à IURD? Há uma contradição. Além do mais, sendo Deus misericordioso, você não deveria se preocupar com minha alma suja, impoluta e pecadora né?
      Cara, percebe-se que sua intenção é vincular ódio à IURD, assim, acho que falta Deus no seu coração (ou juízo na sua cabeça).
      E juro que tentei rir do seu texto (nem esbocei um pkno sorriso)

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    2. nao sei qual é o pior, se esse cara chato ou se o william haddad, com suas opinioes esdrúxula....

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