sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O Naufrágio de White Ship (1120)


O dia 25 de novembro do ano de 1120 foi marcado por uma das maiores tragédias da Inglaterra medieval: o naufrágio do navio White Ship no Canal Inglês, próximo à costa da Normandia, que teve um fim dramático, não apenas sobre as famílias dos envolvidos, mas no próprio trono inglês.

Não havia muito que a dinastia Normanda se estabelecera no trono Inglês. O rei Henrique I, ou simplesmente Henry, estava confiante que sua linhagem devesse continuar com a coroa inglesa por muitas gerações vindouras. A despeito de possuir uma prole bastarda numerosa (cerca de 25 ao todo), ele teve apenas dois filhos legítimos e as esperanças de sua família foram restabelecidas com o nascimento de seu único filho, William Ætheling¹ ("Ætheling " é uma palavra Saxã dada como título a um príncipe ou princesa da família real e significa "trono digno."): chamado pelo título de Príncipe Saxão ao passo que seus pais tinham unido as casas reais Normandas e Saxãs. William era um príncipe guerreiro que, mesmo aos dezessete anos de idade, lutou ao lado de seu pai para legitimar seus direitos em terras normandas no continente. O outro filho de Henry era Matilda Ætheling, um ano mais velha de William, porém mulheres não eram vistas como herdeiras adequadas ao trono, já que o rei desempenhava, acima de tudo, um papel militar, função considerada essencialmente masculina.

Durante seus dezessete anos de vida William estava sendo atenciosa e amorosamente cuidado por seu pai e sua família na tentativa de molda-lo como um bom sucessor. Obteve uma boa educação e uma excelente instrução militar, o que o levou a participar de uma campanha contra os franceses um ano antes de sua morte.

Após a bem-sucedida campanha de 1119, que culminou com a derrota e humilhação do rei Luís VI da França, na Batalha de Brémule, o rei Henrique e sua comitiva foram finalmente se preparando para voltar para a Inglaterra. No final de 1120, o objetivo era concluir as lutas de Henry com alguns barões normandos incômodos e forçá-los a jurar fidelidade como seus vassalos. Em 25 de Novembro de 1120, com sua missão cumprida, o rei -, juntamente com seu filho e muitos outros seguidores - preparado para navegar de volta para a Inglaterra a partir do porto normando de Barfleur. Ao rei Henry foi oferecido, pelo Capitão Fitzstephen, uma das mais finas embarcações da época, o Navio Branco ou White Ship, uma magnífica nau recém-construída na qual teria uma excelente viagem até a Inglaterra, porém o rei já havia preparado seus pertences para a viagem e escolhido outra embarcação. Henry recusou educadamente. Ainda sim, impressionado pelo discurso do capitão ou pelo navio, o rei sugeriu que seria uma ótima oportunidade para o seu filho, William, navegar em tal navio.

O Príncipe William atraiu grande parte da nobreza para acompanhá-lo na viagem a bordo do White Ship. Ele seria acompanhado por cerca de trezentos outros passageiros: 140 cavaleiros e 18 mulheres nobres; seu meio-irmão, Richard; sua meia-irmã, a condessa Matilda de Perche; seus primos, de Stephen e Matilda de Blois; o sobrinho do Imperador Alemão, Henrique V, o jovem conde de Chester e a maioria dos herdeiros de grandes propriedades da Inglaterra e Normandia. Havia um clima de festa no ar e o príncipe tinha trago vinho a bordo do navio em barris. Diversos dos passageiros e tripulantes logo se embriagaram e iniciaram-se alguns problemas. Os tripulantes trocaram ofensas uns com os outros e queriam expulsar um grupo de clérigos que haviam chegado para abençoar o navio antes da viagem. Alguns passageiros, incluindo Estêvão de Blois, que estava doente, com diarreia, parecem ter se sentido indispostos e abortaram a viagem mais tarde.

As viagens marítimas naqueles dias eram coisas perigosas, e era habitual barcos à véspera da partida serem visitados por sacerdotes que ofereceriam uma bênção e uma oração para a segurança. Normalmente, os marinheiros e passageiros recebiam de bom grado essas ministrações.


No entanto, tal era o estado de embriaguez do príncipe William e seus amigos que - diz-se - quando os sacerdotes chegaram a oferecer os seus serviços para a tripulação do White Ship foram demitidos com insultos escarnecedores: "Tome-se fora, bando ovelhas com caras de velhas!"

As folias de bordo atrasaram a partida do White Ship e só finalmente partiu para o mar, depois do pôr do sol. O príncipe descobriu que a maioria das forças do rei já tinha deixado a costa, no entanto, como a jovialidade e a agitação do príncipe falou mais alto, desejou ele ser o primeiro a chegar de volta em casa. Para tal, ordenou ao capitão do navio que forçasse sua linha de remadores a ultrapassar o resto da frota. Estando tão bêbado quanto o resto deles, o mestre cumpriu o comando e o navio começou logo a correr através das ondas.

Embora fosse uma excelente embarcação, o Navio Branco jamais deveria ter partido com a tripulação responsável naquele estado de totalmente embriaguez. Assim sendo, o destino o marcou com um fim trágico. Ele bateu em uma pedra na escuridão da noite e as madeiras do casco se racharam revelando uma passagem para as águas marinhas.

Primeiro, houve um terrível acidente retumbante. Em seguida, uma ruptura e fragmentação de som. Apesar da condição ébria dos passageiros, deve ter sido dolorosamente claro para todos que navio tinha atingido uma rocha. Muito rapidamente, na verdade, ele começou a afundar-se, e surgiram gritos aterrorizados dos passageiros em pânico. Naufragar tão longe da terra significava a morte quase certa para todos, ainda mais no frio das águas do Canal em pleno mês de novembro.

Ao ver que o navio iria afundar em poucos minutos, Fitzstephen rapidamente empurrou o príncipe e alguns de seus homens para o único bote salva-vidas que ele tinha. William desempacotou o pequeno bote e fugiu. Quando parecia já estar a salvo ouviu os gritos de socorro de sua meia-irmã, Marie. Seu coração confrangeu ao desespero da moça que pedia para não deixá-la à morte certa e, mesmo contra a vontade dos demais tripulantes, ele deu meia volta e foi salvá-la. Ao se aproximar do navio para resgatar sua irmã, o bote de William foi “atacado” pelos muitos dos tripulantes que já se encontravam na água tentando se salvar. O bote se virou e o príncipe foi à água como todos os outros e ali nunca mais foi visto.

Mas se todos morreram, como sabemos da história? Na verdade houve um sobrevivente.

Diz-se que a única pessoa a sobreviver ao naufrágio para contar o ocorrido foi um açougueiro chamado Berold (Berthold), que só tinha ido a bordo para coletar as dívidas que os foliões nobres tinham com ele. Conta-se que ele foi encontrado flutuando no canal inglês agarrado a fragmentos do navio. Segundo os relatos, a razão pela qual o açougueiro ter conseguido sobreviver foram duas, e bem frugais. Em primeiro lugar, ele era um homem corpulento e suas reservas de gordura o manteve mais quente do que a maioria, e por mais tempo. O mais importante, porém, é contado que Berthold sobreviveu porque ele era o tripulante mais pobre e vestia roupas mais simples que a de todos os nobres. Sendo um açougueiro humilde, ele estava vestido um simples - mas naturalmente quente - casaco de pele de carneiro. Isto contrasta com o fino - mas muito caro - tecido de seda usados pelos amigos ricos do príncipe. Os corpos finamente vestidos das vítimas foram carregados pelas correntes marítimas até a costa normanda meses depois, o maior exemplo foi o conde de Chester.


Nesse meio tempo, no entanto, Henry tinha chegado em casa com segurança e sua ansiedade cresceu ao perceber nenhum sinal do navio de seu filho. Seus nobres tinham quase todos sofrido perdas graves: tal era a impressionante variedade de nobres no White Ship. Quase não havia quem não tivesse perdido um filho, filha ou marido.

A corte do Rei Henry soube da notícia rapidamente, mas ninguém conseguiu reunir a coragem de dizer a ele o ocorrido. Por fim, um pequeno menino foi convocado e treinado para recitar um breve discurso. Em seguida, ele foi levado a presença do rei, sob a instrução de dizer-lhe a fatalidade. Diz-se que o menino estava tão horrorizado com a tarefa, que ele desatou a chorar imediatamente. Contudo, em meio a lágrimas e soluços, ele finalmente conseguiu balbuciar as notícias terríveis.


Rei Henry silenciosamente murmurou palavras inaudíveis com o menino e agarrou a borda do seu manto. Quando a mensagem foi transmitida por completo, o monarca desmaiou, indo ao chão com tamanha força que os nobres escutaram e correram para ajudar. 

Depois que o rei Henry soube do desastre, diz-se que ele nunca sorriu novamente. Desesperado para garantir a sucessão de sua família, ele pediu aos barões ingleses um juramento de defender os direitos do seu segundo filho legítimo que restou: a jovem Matilda, que deveria ser reconhecida como rainha após a morte de Henry. Mas o tempo para uma mulher para ser aceita no trono Inglês ainda não havia chegado. Quando o rei Henry morreu, seu sobrinho, Estêvão de Blois tomou posse da coroa e, quatro anos mais tarde, o status quo degenerou em uma guerra civil que ficou conhecida como A Anarquia.
Estêvão de Blois
É interessante notar que Estêvão iria embarcar no White Ship juntamente com William, mas o ataque de diarreia o fez mudar o dia da viagem. Posteriormente, ele seria o responsável pelo golpe contra a herdeira, Matilda.

1 - Encontra-se também, em algumas fontes, com o nome de Guilherme Ætheling

Tradução/ Adaptação:  Áviner Reis, Taberna Do Fauno
Referência:

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