quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O Conto dos Heike (Heike Monogatari)


Heike Monogatari ("Narrativa dos Heike") - É a versão clássica de um relato épico sobre a disputa territorial entre dois clãs japoneses. Esta versão, do Gempei Seisuiki, em 12 volumes, foi escrita entre 1202 e 1221 e atribuída a Hamuro Tokinaga, Yukinaga ou Minamoto no Mitsuyuki. Entretanto, a versão cantada (Heukyoku), escrita por Akashi Kakuichi em 1371, é a aceita atualmente como definitiva, visto que esse é um "conto de guerra" (Gunk Monogatari) que foi refeito uma centena de vezes entre o momento de sua primeira composição e esta última data.

O original foi escrito em chinês (kambun) e incorporava narrativas e cantos diversos provenientes de várias fontes. Essa gesta conta o destino dos Taira após o Hôgen no Ran (1156) e o Heiji no Ran (1160), quando eles conquistaram primeiramente a supremacia sobre o clã rival dos Minamoto (Genji): o personagem principal era Taira no Kiyomori, na primeira parte; os Minamoto (Yoshinaka, Yoritomo e Yoshitsune) ocupavam as segunda e terceira partes do ciclo. A história termina em 1185 com a vitória definitiva de Minamoto no Yoritomo e a última derrota dos Taira na batalha naval de Dan no Ura. Esse grande conto épico é rico em batalhas e grandes feitos de armas e é impregnado de moral e fé budistas, sobretudo do sentimento de impermanência de todas as coisas, sentimentos que provavelmente foram acrescentados aos fatos pelos cantores budistas (biva-hôshi) que declamavam essas narrativas.

No século XII, havia no Japão feudal, um poderoso clã que governava a grande maioria das terras do país. Esse clã, conhecido como Taira (ou Heike), dominava quase todo o território japonês e era liderado nominalmente pelo jovem imperador de sete anos, Antoku.

Por ser jovem demais, Antoku era guardado e cuidado por sua avó, a Senhora Nii. Durante longos anos, os samurais do pequeno imperador Heike batalharam contra outro clã samurai, os Genji (ou Minamoto), enquadrando um período de intensas batalhas conhecido como Guerras Genpei (1180-1185). 


Imperador Antoku
Tal guerra sangrenta não parecia ter fim, ambos os exércitos viviam a se cruzar nos campos de batalha, sendo que nunca havia um vitorioso definitivo. O motivo da guerra entre os dois clãs era dado pela diferença de reivindicação ancestral entre ambos, onde um acreditava numa ancestralidade superior à do outro, detentora real dos direitos imperiais.

Foi em Dan no Ura, próximo ao Mar Interior japonês, no dia 24 de Abril de 1185 que a batalha decisiva ocorreu: os Heike se encontravam em menor número e tiveram suas estratégias de combate descobertas pelo clã inimigo.

Os Genji, em maior numero e com técnicas novas, realizaram um verdadeiro massacre. Quando os poucos sobreviventes Heike previram uma derrota inevitável, se atiraram no mar e morreram afogados. Temendo algo de ruim com seu pequeno neto, Lady Nii o levou para um barco e lá o pobre garoto perguntou a sua avó:

 – Para onde você vai me levar?

Com o rosto regado de lágrimas senhora Nii, acariciou Antoku e tentou confortá-lo. Neste momento ele já havia percebido o seu destino. Juntou a palma de suas mãos e com um gesto de quem está a orar, reverenciou o Leste, despedindo-se do deus Deesi e posteriormente curvou-se para o oeste, em reverência ao Nembutsu. Após a despedida, Ankoto foi para os braços de sua avó que disse:

- Nas profundezas do oceano está nossa capital! – E atirou-se no mar, onde ambos tiveram o mesmo fim dos últimos soldados Heike.

A destruição do exército Heike naquele ano marcou o fim dos 30 anos de governo do clã que quase desapareceu para sempre. Os últimos membros que sobreviveram foram 43 mulheres.

Todas estas antigas damas da corte imperial se converteram em vendedoras de flores e passaram a prestar favores aos pescadores que viviam no local onde ocorrera a terrível batalha. Tais mulheres tiveram filhos com os pescadores e passaram a reunir suas famílias para celebrar cerimônias em referência a batalha.

Atualmente, todos os anos, os descendentes Heikes vão ao santuário Akama que contém o mausoléu do antigo imperador de setes anos, Antoku. Lá eles orquestram uma cerimônia em homenagem aos guerreiros Heikes que morreram em Dan no Ura.


Batalha de Dan no Ura
Outra questão interessante é que os pescadores descobriram uma espécie distinta de caranguejo que possui na sua carapaça um desenho semelhante ao rosto de um samurai enfurecido. Pensando que tal anomalia fosse a manifestação do espírito dos guerreiros Heikes que morreram no mar, os pescadores não capturam estes caranguejos e os devolvem ao mar, para que vivam em paz.

Atualmente a população local destes animais vem crescendo em grande escala, já que não possuem mais o homem como predador.

Acredita-se que o espírito de Antoku vagueia pelos mares do Japão na forma de caranguejo a vigiar e proteger os descendentes Heikes.


Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Referências: 
"One Voice in the Cosmic Fugue" - Cosmos, Episódio 2 por Carl Sagan (1980)
FRÉDERIC, Louis. O Japão: dicionário e civilização. Ed. Globo, São Paulo, 2008.

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