segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A Lenda de Matinta Pereira


Matinta Perera é o nome dado a uma entidade folclórica oriunda da mitologia dos povos amazônicos, a qual é descrita como uma velha mulher sobre a qual se sabe muito pouco. Seu rosto, sempre coberto pelos cabelos grisalhos caídos e amaranhados. Em algumas versões também apresenta-se como um homem velho, com um pano amarelo amarrado na cabeça e capaz de se metamorfosear em animais terrestres, voadores e até mesmo aquáticos. Tal homem, possui uma aparência enferma e sai batendo de porta em porta em busca de tabaco.


Contudo, a versão mais comum, sendo a mais conhecida na região norte, é da velha de hábitos noturnos e roupas negras fúnebres, que tem o poder de se transformar em animal, sendo a forma de porco e a de pássaro a mais recorrentes. Suas aparições ocorrem tanto nas florestas quanto nas cidades.

Em sua dissertação de mestrado, Gabriel Lage da Silva Neto, nos conta “uma história bastante peculiar a respeito desse personagem mítico se chama A Porca do Reduto (Monteiro, 1985:19), que conta que, há muitos anos, uma enorme porca, diariamente, sempre por volta das 22 horas, desassossegava os moradores da Rua 28 de Setembro, na cidade de Belém, correndo da Praça Magalhães Barata até o Igarapé das Almas. Após sucessivas tentativas frustradas, os moradores acabaram por emboscar e matar a tal porca. No dia seguinte, ao retornarem ao local onde a porca foi morta, se depararam com o corpo sem vida de uma velha senhora que perambulava pelo bairro”.

Na tese de doutorado de Maria Do Carmo Pereira Coelho, a lenda é assim descrita:

Matinta Pereira é uma velha vestida de preto, com os cabelos caídos no rosto. De hábitos noturnos, dá preferência para as noites sem luar. Quando sente a presença de alguma pessoa, ela solta um assobio estridente que dá impressão de estar gritando o seu próprio nome "Matinta Pereira".  O seu aparecimento causa verdadeiro pavor às pessoas. A Matinta Pereira poderá aparecer em diversas formas diferentes se transformando em velha, pássaro, porco, cavalo, galinha e pato. Para se descobrir quem é Matinta Pereira, basta que a pessoa ao ouvir o seu assobio convide-a para vir a sua casa pela manhã e tomar café. Na manhã seguinte a primeira pessoa que chega pedindo café ou tabaco é a Matinta Pereira. Acredita-se que a Matinta Pereira possua poderes sobrenaturais, seus feitiços são capazes de causar prejuízos às suas vítimas principalmente com respeito à saúde, causando-lhes fortes dores físicas e podendo até mesmo levá-las à morte.

Além dessa versão, a lenda pode se apresentar de forma inversa, na qual Matinta Perera é um pássaro agourento, capaz de se transformar em uma velha pessoa, seja homem ou mulher. Seu assobio pode ser ouvido de longe, mas nunca se sabe de onde vem. Ao ouvir o estridente grito da Matinta, muitos moradores respondem-na oferecendo fumo ou café, para que evitem os infortúnios causados por seus feitiços. Logo pela manhã, a primeira pessoa que aparecer na casa da pessoa a pedir o fumo ou o café oferecido, será Matinta Perera.


Para o grupo indígena Tupinambás tal ave, era uma mensageira do mundo dos mortos e quando seu assobio, que lembra seu próprio nome, ecoava pelos ares, significava que ela trazia notícias do além, notícias de parentes que já se foram e agora estão noutro mundo.

Embora existam várias versões da lenda, todas convergem no aspecto de se caracterizar Matinta como um indivíduo nômade, que anda a gritar, ou a assobiar como um pássaro, ou ainda a tocar uma flauta e sempre a mendigar tabaco.

Existem outras denominações para este personagem mítico, tais como: Maty-Taperê, Matinta Pereira, Maty, Saci, Pererê, Saci Pererê, Cererê. Quanto ao Saci, em algumas regiões tal lenda é considerada uma variação da lenda do Saci Pererê. Inclusive, muitos estudiosos defendem a sentença de que Matinta Pereira é uma variante da lenda do Saci e vice versa.

Embora Matinta seja uma personagem temida por aqueles que acreditam em sua lenda, existem aqueles que afirmam existir técnicas para capturá-la ou ainda revelar sua verdadeira identidade. Em depoimentos prestados por pessoas, uma das formas de desencantá-la está em cravar uma tesoura virgem no solo e ao seu redor colocar uma chave ou um terço. Caso houver alguma Matinta nas redondezas, ela será encontrada, no dia seguinte, caída ao lado dos objetos, como se estivesse presa ao chão. Outra técnica reside em dar uma volta com uma chave na fechadura de um guarda-roupas ao ouvir o assobio da ave que na manhã seguinte, a pessoa virá pedir café. No entanto, a técnica mais simples é a oferenda de tabaco ou café à mítica velha.

Acredita-se também, que quando uma Matinta está para morrer, seja de velhice ou por alguma enfermidade, ela pergunta “Quem quer?”, entre algum grupo de pessoas e se algum desavisado entrar na brincadeira respondendo “Eu!”, achando que receberá alguma coisa de valor, na verdade será amaldiçoado pela velha e tornar-se-á Matinta pelo resto de sua vida.

O pássaro Tapera naevia, popularmente denominado de Mati-taperê, Sem-fim, ou Peitica, como é conhecido no Nordeste, cujo canto melancólico, ecoa em todas as direções, não permitindo sua localização, é a figura que encarna o mito. Abaixo, um vídeo demonstrando o canto do pássaro Tapera naevia.


Atualmente, a figura mítica da Matinta Perera ainda muito difundida oralmente, sobrevive no imaginário popular diante dos mitos modernos disseminados pela mídia, tais como bruxas, vampiros, lobisomens e fantasmas. Para Gabriel Lage, o mito “representa uma época de inocência. Uma época onde os temores não eram de assaltos ou sequestros relâmpagos, e sim do sobrenatural, que metia medo e, ao mesmo tempo, fascinava. As histórias das Matintas que povoam a região norte do Brasil eram contadas em rodas formadas por vários adultos e crianças, sem segredo algum”.

Autor: Áviner Reis, Taberna Do Fauno

Bibliografia:
COELHO, M. C. P. As Narrações da Cultura Indígena da Amazônia: Lendas e Histórias. São Paulo, 2003. Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

LAGE NETO, G. Mídia e narrativas míticas brasileiras: O caso do Programa Catalendas da TV Cultura do Pará. São Paulo, 2010. Dissertação (mestrado) – Faculdade Cásper Líbero Programa de Mestrado em Comunicação.

3 comentários:

  1. Parabéns pela postagem!! Gostei muito de saber sobre essa lenda. Nunca tinha ouvido falar!
    Só um pequeno detalhe, a ave da foto é da mesma família do saci, mas é uma outra espécie, se trata de um anu-branco (Guira guira). A do vídeo é um saci mesmo. :)

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    1. TVBR, de fato não é a mesma ave, mas ambos são muito parecidos e da mesma família (Cuculidae), por isso a semelhança, sendo fácil confundi-los à primeira vista. Outro fato bem interessante é que o saci é bem difícil de se ver, sempre o ouvia cantando, mas nunca via o danado! rs.

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  2. Como o autor citado Gabriel Lage disse saudade dessa "epoca de inocencia".

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